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Celeração do centenário
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O Início do Ateliê de Pintura (text mavignier)
Rio de Janeiro
Foi o serviço diário de 10 a 15 horas que me levou como pintor a trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro, de 1946 até novembro de 1951. É sobre esse período que escrevo aqui.
A minha função no hospital era a de acalmar doentes agitados. O diretor Paulo Elejalde, porém, me encarregou de realizar projetos para jardins.
Durante uma exposição de trabalhos manuais do serviço de praxiterapia, propus a sua diretora, Nise da Silveira, organizar um ateliê de pintura para os internados. A idéia veio de encontro a um antigo projeto seu.
O ateliê foi inaugurado no dia 9 de setembro de 1946. Estava organizado nas salas de um edificio central, situado entre quatro hospitais vizinhos, dos quais os internados eram conduzidos diariamente para pintar, trabalhando das 10h às 14h30.
Não era arte, senão terapia, que se buscava. Eu, como pintor, e não come psiquiatra, estava, porém, interessado nos artistas a descobrir, procurando-os nos pátios e nas enfermarias dos hospitais.
Encontrei assim Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Fernando Diniz, Lacio e Raphael Domingues. Outros internados andavam livres, entravam no ateliê e participavam, como Abelardo, Isaac Liberato e Arthur.
O meu préprio ateliê foi instalado no hospital, correspondendo à necessidade de colocar um pintor e não um guarda vigilante para dirigir a seção. Não havia aulas, senão conselhos técnicos, como água para aquarela e terebintina para óleo. Não havia reproduções ou revistas de arte, a fim de preservar a projeção de imagens do inconsciente. Os pintores trabalhavam profundamente concentrados, o que os afastava das Influências reciprocas. O trabalho diário contribuiu para a melhora técnica das pinturas.
RAPHAEL PESSOALMENTE
Conheci o Raphael internado no hospital e o externado em casa. No ateliê do hospital, era introvertido e triste. Em sua casa, alegre e brincalhão, escondendo a chave da casa, o que sua mãe sabia e tolerava.
Nas sessões de desenho gesticulava no ar, baixava a pena e deixava linhas sobre o papel como vestígio dos gestos. Durante esse ritual, parava e falava. Uma vez se dirigiu a Mário Pedrosa, advertindo: “Tire o pezinho da cadeira”, ao que Mário imediatamente obedeceu.
Por outra ocasião, conduziu a pena em direção à mão de Mário, fazendo um ponto na unha.
Sua mãe, pessoa simples, paciente e agradecida pelo interesse das visitas, nunca pôde compreender os elogios aos desenhos, que considerava “escalafobéticos”, o que significa desajeitados, desengonçados ou estrambólicos.
Como expressão de agradecimento pelo trabalho, ofereceu várias vezes desenhos belíssimos como presente, que eu “dolorosamente” depositei na coleção do atelié no hospital.
RAPHAEL E EMYGDIO
Raphael dissociava
Raphael intitulava “Flausi-flausi”.
Raphael era solicitado para assinar.
Raphael trabalhava comigo.
Raphael projetava suas estruturas automaticamente.
Raphael aprendeu a terminar, jogando a folha do desenho e aprendeu a separar as vivéncias em diferentes telas.
Raphael parou de desenhar depois da minha viagem
Emygdio associava.
Emygdio intitulava “Universal”.
Emygdio assinava espontaneamente.
Emygdio trabalhava sozinho.
Emygdio projetava suas vivéncias conscientemente.
Emygdio pintou até morrer.
Organizei o atelié do Centro Psiquiatrico como pintor. Pude, portanto, reconhecer o talento do internado para pintar, pela sua sensibilidade ao misturar cores.
Os primeiros quadros de Emygdio assinalaram esse talento, o que justificou Ihe comprar material a fim de realizasse grandes telas. Eu o assistia respeitando cua
liberdade de criação.
A experiéncia do ateliê mostrou as fontes de criação que se encontram dentro, e nao fora do artista. Esse conhecimento influenciou o meu trabalho, fazendo-me realizar uma pintura experimental e não comercial.
O ateliê influenciou também a minha atividade pedagógica, no sentido de ajudar jovens artistas a encontrar a sua própria personalidade. Esse conceito me orientou como professor de pintura na escola de Belas Artes em Hamburgo, de 1965 até 1990.
Os artistas do ateliê pintavam projetando imagens do trabalhavam como estudantes das inconsciente. Não trabalhavam como estudantes de Belas Artes, que se encontram ligados a uma arte tradicional. Essa tradição se deixa reconhecer como “arte do consciente”, denominação que uso para representar a família internacional de artistas.
Os pintores do Engenho de Dentro não pertenciam a essa família. Suas obras fazem descobrir, na história da arte moderna do Brasil, um grupo de artistas incomparaveis, porque não foram influenciados por tendências estrangeiras.
Almir Mavignier, Hamburgo 6 julho 1998
Foi o serviço diário de 10 a 15 horas que me levou como pintor a trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro, de 1946 até novembro de 1951. É sobre esse período que escrevo aqui.
A minha função no hospital era a de acalmar doentes agitados. O diretor Paulo Elejalde, porém, me encarregou de realizar projetos para jardins.
Durante uma exposição de trabalhos manuais do serviço de praxiterapia, propus a sua diretora, Nise da Silveira, organizar um ateliê de pintura para os internados. A idéia veio de encontro a um antigo projeto seu.
O ateliê foi inaugurado no dia 9 de setembro de 1946. Estava organizado nas salas de um edificio central, situado entre quatro hospitais vizinhos, dos quais os internados eram conduzidos diariamente para pintar, trabalhando das 10h às 14h30.
Não era arte, senão terapia, que se buscava. Eu, como pintor, e não come psiquiatra, estava, porém, interessado nos artistas a descobrir, procurando-os nos pátios e nas enfermarias dos hospitais.
Encontrei assim Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Fernando Diniz, Lacio e Raphael Domingues. Outros internados andavam livres, entravam no ateliê e participavam, como Abelardo, Isaac Liberato e Arthur.
O meu préprio ateliê foi instalado no hospital, correspondendo à necessidade de colocar um pintor e não um guarda vigilante para dirigir a seção. Não havia aulas, senão conselhos técnicos, como água para aquarela e terebintina para óleo. Não havia reproduções ou revistas de arte, a fim de preservar a projeção de imagens do inconsciente. Os pintores trabalhavam profundamente concentrados, o que os afastava das Influências reciprocas. O trabalho diário contribuiu para a melhora técnica das pinturas.
RAPHAEL PESSOALMENTE
Conheci o Raphael internado no hospital e o externado em casa. No ateliê do hospital, era introvertido e triste. Em sua casa, alegre e brincalhão, escondendo a chave da casa, o que sua mãe sabia e tolerava.
Nas sessões de desenho gesticulava no ar, baixava a pena e deixava linhas sobre o papel como vestígio dos gestos. Durante esse ritual, parava e falava. Uma vez se dirigiu a Mário Pedrosa, advertindo: “Tire o pezinho da cadeira”, ao que Mário imediatamente obedeceu.
Por outra ocasião, conduziu a pena em direção à mão de Mário, fazendo um ponto na unha.
Sua mãe, pessoa simples, paciente e agradecida pelo interesse das visitas, nunca pôde compreender os elogios aos desenhos, que considerava “escalafobéticos”, o que significa desajeitados, desengonçados ou estrambólicos.
Como expressão de agradecimento pelo trabalho, ofereceu várias vezes desenhos belíssimos como presente, que eu “dolorosamente” depositei na coleção do atelié no hospital.
RAPHAEL E EMYGDIO
Raphael dissociava
Raphael intitulava “Flausi-flausi”.
Raphael era solicitado para assinar.
Raphael trabalhava comigo.
Raphael projetava suas estruturas automaticamente.
Raphael aprendeu a terminar, jogando a folha do desenho e aprendeu a separar as vivéncias em diferentes telas.
Raphael parou de desenhar depois da minha viagem
Emygdio associava.
Emygdio intitulava “Universal”.
Emygdio assinava espontaneamente.
Emygdio trabalhava sozinho.
Emygdio projetava suas vivéncias conscientemente.
Emygdio pintou até morrer.
Organizei o atelié do Centro Psiquiatrico como pintor. Pude, portanto, reconhecer o talento do internado para pintar, pela sua sensibilidade ao misturar cores.
Os primeiros quadros de Emygdio assinalaram esse talento, o que justificou Ihe comprar material a fim de realizasse grandes telas. Eu o assistia respeitando cua
liberdade de criação.
A experiéncia do ateliê mostrou as fontes de criação que se encontram dentro, e nao fora do artista. Esse conhecimento influenciou o meu trabalho, fazendo-me realizar uma pintura experimental e não comercial.
O ateliê influenciou também a minha atividade pedagógica, no sentido de ajudar jovens artistas a encontrar a sua própria personalidade. Esse conceito me orientou como professor de pintura na escola de Belas Artes em Hamburgo, de 1965 até 1990.
Os artistas do ateliê pintavam projetando imagens do trabalhavam como estudantes das inconsciente. Não trabalhavam como estudantes de Belas Artes, que se encontram ligados a uma arte tradicional. Essa tradição se deixa reconhecer como “arte do consciente”, denominação que uso para representar a família internacional de artistas.
Os pintores do Engenho de Dentro não pertenciam a essa família. Suas obras fazem descobrir, na história da arte moderna do Brasil, um grupo de artistas incomparaveis, porque não foram influenciados por tendências estrangeiras.
Almir Mavignier, Hamburgo 6 julho 1998